Aldoar era uma pequena localidade que servia de passagem pela extensa Rua da Vilarinha para as festas do Senhor de Matosinhos e um local de passagem dos peregrinos que seguiam em direcção ao Bom Jesus de Bouças. “Por ela [Aldoar] passavam multidões de romeiros a pé, cavalgaduras e carros de toda espécie, o que originava grande movimento e, por isso, o regedor aperrava os cabos policiarem a estrada, pois no regresso havia sempre desordens, cabeças esquentadas e quebradas”, escreve Júlio Couto no seu completo Guia de Aldoar. Neste valioso documento, o autor cita uma notícia de 1886, e Pinho Leal, relativa aos hábitos aldoarenses: “É costume em volta do Porto, nesta freguesia, entreterem-se os filhos e as filhas do campo (maneis e lavradeiras) com requebros e amabilidades, conversando ou namorando francamente desde a infância, em toda a parte, de dia e de noite - nas ruas, na lavoura, nos arraiais e nas feiras. Estão, por vezes, horas e horas, conversando em prova e em verso delambido, coisa muito interessante para os estranhos à classe. Conversam por entretenimento e simples distracção, muitas vezes sem intenção de se casarem - outras por afeição ou paixão”.
Sobre as origens desta freguesia, em 1973 ficou provado que o nascimento de Aldoar remonta o período anterior à Romanização. Nesse ano, escavações do aldoarense Adriano Vasco Rodrigues - distinguido com a medalha de ouro da cidade - encontrou provas de uma povoação de pescadores, datadas da Idade do Ferro, dos Séculos IV e III AC. Diversos povos foram passando por Aldoar, deixando marcas que se perderam com o tempo. Entre 27 e 2 AC, sobre o domínio do Imperador Augusto, os Romanos alargaram as suas conquistas até à Península Ibérica. A toponímia aldoarense é prova eterna dessa passagem, com a expressão «villae», que viria a dar origem a Vila e Vilarinha, nome de uma das mais importantes ruas da freguesia.
Relativamente à toponímia, diversas versões dão origem a uma interessante discussão, a uma multiplicidade de raciocínios, de teses, todas elas escorridas da História e dos antepassados aldoarenses. No primeiro volume do livro Portugal Antigo e Moderno, de Pinho Leal, o autor sustenta que Aldoar deriva de uma palavra árabe e que significa “redonda”. Já Vasco Rodrigues defende outra ideia, concordando com o facto de se tratar de uma palavra árabe, «Al-Duar», que quer dizer “acampamento militar ou mesquita”. Por sua vez, Sousa Machado argumentou que Aldoar brota de “alduarius”, mas acabou por aceitar a presença muçulmana na zona e daí a proveniência desta terminologia.
Júlio Couto (economista e professor de dicção, homem ligado à Televisão, Jornais e Rádio, que se interessou profundamente por esta matéria), partilha a ideia da origem muçulmana, tal como Cunha Freitas publicara em O Primeiro de Janeiro, nas suas lições de toponímia.
O padroeiro da freguesia é S. Martinho, um soldado romano, pagão, nascido em terras da actual Hungria, no ano de 315 ou 316. O nome «Martinho» surge em homenagem a Marte, o Deus da Guerra. S. Martinho cresceu em Itália, em Pavia, alistando-se no exército romano, tal como fizera seu pai. Subiu na hierarquia até ao posto de oficial, como circitor, incumbindo-lhe as rondas nocturnas e inspecções de postos de guarda. Nessa missão, apoiou um mendigo, que padecia de frio, oferecendo-lhe metade da sua capa. Revelou desde logo a sua compaixão. Na noite a seguir, sonha com Cristo, coberto por metade dessa capa. Diz-lhe Cristo: “Martinho, ainda catecúmeno, deu-me este vestuário”. Sonho que propiciou a conversão ao Cristianismo. Martinho passou a ser um soldado de Cristo.
Foi acusado pelos seus superiores de cobardia, de não querer entrar nas lutas. No entanto, respondeu às críticas oferecendo-se para se colocar sem armas na primeira linha do exército romano, que viria a enfrentar os poderosos bárbaros.
Quando a batalha começa, eis que os bárbaros se rendem, apesar de serem mais numerosos e temíveis. “Foi milagre de Martinho”, acreditaram os romanos, que viram um homem sem armas, na couraça da sua fé, derrotar um poderoso exército.
Martinho tem outro sonho: a conversão dos seus pais. Parte para a sua terra natal, mas é encurralado por um bando de criminosos, que tenta assassiná-lo nos Alpes. Escapa por milagre e converte um dos inimigos, que lhe concede a fuga. Chega a casa, mas só convence a mãe. O pai mantém-se fiel à sua religião.
Martinho é obrigado a fugir, instala-se em Milão, volta a ser perseguido pela população, e instala-se na Galinária. Já padre, vai pregar para as gentes do campo e funda uma comunidade semi-eremita, cumprindo o primeiro milagre: a ressurreição de dois jovens mortos. E assim cativa a atenção dos povos…
Os seus feitos continuam a engrandecê-lo. É aclamado e senta-se na cadeira do bispado. Ao contrário dos senhores da igreja de então - que viviam confortáveis nos seus palácios -, Martinho percorre a diocese e contacta com os camponeses, nomeando sacerdotes para multiplicar a Palavra de Deus. Luta contra a heresia, a miséria, deu voz a mudos, curou leprosos, até que morre, em Novembro de 397.
Passa a ser venerado em todo o Mundo. Em Portugal, só no Porto, são-lhe dedicadas três freguesias - S. Martinho de Aldoar, Cedofeita e Lordelo do Ouro - e 39 paróquias.
Em termos geográficos, a freguesia de Aldoar faz fronteira com o concelho de Matosinhos (a Norte), com o Oceano Atlântico (a Poente), com Ramalde (a Nascente), com Nevogilde (a Sul e Poente), com a Foz do Douro (também a Sul) e com Lordelo do Ouro (a Sudeste).
Em Aldoar, passavam diversos ribeiros. “O maior descia paralelo à Rua da Vilarinha, pela Avenida da Boavista actual e daí para o mar”, contam os anos de pesquisa e a sabedoria de Júlio Couto. Outro dos ribeiros seguia pela Rua do Revilão, até à Fonte da Moura. Moleiros, ferradores, oleiros, carpinteiros e alguns pescadores marcaram o desenvolvimento de Aldoar, incluída na cidade do Porto desde 21 de Novembro de 1895.
Em 1916, passa a pertencer à região eclesiástica da Invicta. Durante algum tempo, a freguesia manteve as suas características da ruralidade, mas com os passar dos anos o urbanismo foi inevitável, dando a Aldoar um aspecto mais citadino, também graças aos cerca de 14 mil habitantes, que se distribuem por uma área de 2,67 quilómetros quadrados.
O urbanismo foi fortemente incrementado com a construção de núcleos habitacionais de qualidade acrescida, construídos pelas cooperativas de habitação. Por outro lado, na Rua da Vilarinha continuam a existir bonitas casas do século XIX, com varandas decoradas e escadas de acesso à rua.
Aldoar evoluiu, soube acompanhar a caminhada do progresso, mas não ignorou a riqueza do seu passado. Persistem inúmeras provas desse passado que orgulha, provas que hoje são património imperecível.
Actualmente, a freguesia é uma mistura de rural com urbano. Nos últimos anos, não só tem evoluído em termos económicos, como ao nível demográfico. Aldoar dispõe de equipamentos que lhe conferem um grau elevado de progresso: Centro Social da Fonte da Moura, Centro de Bem-estar Nossa Senhora do Socorro, Centro Social de S. Martinho de Aldoar (que gere o Centro de Dia da Paróquia de Aldoar, em parceria com a Junta), Centro de Saúde de Aldoar, Centro Paroquial de Aldoar e o Hospital Magalhães Lemos.
O Parque da Cidade, na Avenida da Boavista, é um dos mais bonitos espaços verdes do concelho e o ex-libris da freguesia, símbolo da grandeza de Aldoar, do equilíbrio perfeito entre a natureza e a cidade.
Bibliografia
Guia de Aldoar, de Júlio Couto
Monografia de Aldoar, de Júlio Couto