A grandeza da Rússia no coração de um médico
O destino uniu uma descendente do czar russo Nicolau I e um médico benfeitor que será eternamente recordado pela sua obra generosa: não cobrava consultas e pagava os medicamentos aos seus pacientes. Aldoar foi palco desta história de amor…
Em Aldoar, constrói-se história todos os dias e preserva-se no tempo este presente, que um dia será passado. Assente nesse pressuposto, a freguesia construiu um património de que se orgulha. Respeitando os seus antepassados, que um dia foram presente, presta-lhes a mais pura homenagem.
E conta a história que Portugal acolhe, desde o ano de 1859, a descendência de um czar da Rússia: o filho de Nicolau I e de Pavlina Ruzitschka . Gustavo Romanoff (Salvini) marca a chegada da descendência do czar a Portugal e representa a força desta união, que nunca mais se perdeu e que perdura há séculos.
Gustavo Romanoff (Salvini) nasceu em Prauss, na Polónia Prussiana, a 25 de Março de 1825. Vítima de perseguições políticas, refugiou-se em Itália, nos inícios de 1847, onde aperfeiçoa os seus conhecimentos sobre canto, entrando, dois anos mais tarde, na ópera, em Reggio de Parma, como tenor.
Percorreu diversos teatros, italianos e franceses, chegando a Portugal em 1859, onde integra o Real Teatro de S. João. Num ensaio da ópera Beatriz de Bellini, perde subitamente a voz e deixa de cantar. Perde a voz, mas não a paixão pela música.
Fixa residência no Porto e dedica-se a leccionar a sua arte: o canto. Para a posteridade e como legado, oferece-nos obras como 'As Minhas Lições de Canto', 'Semiografia Musical', 'Cancioneiro Musical Português', 'Da Palavra Unida à Música', entre muitas outras.
Gustavo morreu para a arte depois de uma hemorragia cerebral, que lhe retira a visão, quase totalmente. E após tempos de amargura, perde a vida, na madrugada de 2 de Fevereiro de 1894, deixando viúva D. Maria das Neves Soares Romanoff Salvini e três filhos: Júlio Gustavo, Camilo e D. Maria Júlia Adelaide.
Na viagem pela árvore genealógica da família de Nicolau I, partiu-se de Gustavo Romanoff (Salvini) e chega-se a Júlio Gustavo, que com a morte do pai regressa a Portugal, vindo do Rio de Janeiro, Brasil, corria o ano de 1903.
Júlio Gustavo é pai de três filhos: Anselmo, Aurélia e Julieta. E precisamente Julieta passa a residir em Aldoar, após ter contraído matrimónio a dezasseis de Março de 1932, com Manuel Melo Adrião, outra grande figura da freguesia, conhecido como ‘médico dos pobres’.
A alcunha de 'médico dos pobres' resulta do facto de Melo Adrião se dedicar à sua arte, a medicina, de coração aberto, ajudando os aldoarenses que tinham poucos meios financeiros. Prestava serviços e utilizava os seus conhecimentos de forma gratuita.
Melo Adrião chegou a Aldoar em 1935. Dizia-se então que "pagava para exercer medicina". Além de não cobrar pelos serviços, prescrevia medicamentos e ele próprio pagava, nas farmácias, as facturas que os seus pacientes não conseguiam suportar. Somas consideráveis, nos tempos que corriam.
A sua generosidade não tinha limites. Por ironia do destino, foi traído pelo próprio coração, aos 57 anos. Morre vítima de doença cardíaca, a 15 de Novembro de 1964, deixando para a história aldoarense um marco eterno, uma obra à qual a freguesia e a população ficarão eternamente gratas.
Melo Adrião e Julieta Romanoff Salvini de Melo Adrião tiveram dez filhos e todos eles residiram em Aldoar. Alguns já partiram, mas deixaram descendência: filhos e netos que, orgulhosos da sua família, guardam documentos, reúnem e partilham fragmentos do passado.
Dessa partilha, nasceu o pequeno relato desta história aldoarense, a narração de um amor imperecível, uma memória que Aldoar jamais esquecerá.
