




Aldoar no coração de Manoel de Oliveira
O mais antigo realizador do mundo completou 100 anos, a 11 de Dezembro de 2008. Percorreu um século de vida e continua a exercer a paixão que o alimenta, que nos alimenta. Quase metade dessa vida teve Aldoar como palco e será exibida em filme após a morte de Manoel de Oliveira, com a Rua da Vilarinha como pano de fundo. Uma longa-metragem de história, sentimento e saudade.
O tempo encarregou-se de alterar os pedaços da vida de Manoel de Oliveira. Todos, excepto um: as memórias da Rua da Vilarinha, que permanecem indestrutíveis no sentimento do cineasta.
São memórias da vivenda construída pelo arquitecto José Porto, onde Manoel de Oliveira residiu 42 anos, ao lado da sua esposa. Ali, assistiu ao nascimento dos filhos e dos netos, na casa que abandonou contra a sua vontade, por motivos de força maior.
Foram mais de quatro décadas vividas em Aldoar, cenário de alguns das mais importantes cenas da vida real do realizador. Cenas que não se quedam pelo imaginário e que apenas serão exibidas em filme após a morte de Manoel de Oliveira, por sua vontade.
O filme está guardado em segredo. "Visita ou Memórias e Confissões" foi gravado em 1982, na casa do cineasta, na Rua da Vilarinha, e tem como protagonistas Manoel de Oliveira, Maria Isabel de Oliveira, sua esposa, e o escritor Urbano Tavares Rodrigues.
Das cerca de 50 películas que constam da generosa obra do centenário realizador, esta será, talvez, a mais importante. Trata-se da sua vida em cinema, num filme autobiográfico, cujo palco é Aldoar.
"Este mundo é um teatro e, nós, os intérpretes, estamos a desempenhar algo. ‘Visita’ surge de uma circunstância, que provocou o acaso, o qual resultou num filme. Eu entendi que devia guardar aquela memória, e passei-a ao cinema... ", disse Manoel de Oliveira, em 1996, numa entrevista a José Matos-Cruz Oliveira.
Antes de deixar a casa da sua vida, onde residiu entre 1940 e 1982, Manoel de Oliveira eternizou um passado que deixou marcas, como a detenção feita pela PIDE, em 1963. Na prisão, conheceu Urbano Tavares Rodrigues.
Em "Visita ou Memórias e Confissões", a vida real mistura-se com diálogos ficcionados da autoria de Agustina Bessa-Luís e música de Beethoven. O destino encarregar-se-á de ditar a hora de estreia.
Recordar a obra e assinalar o centenário de vida de Manoel de Oliveira é um singelo acto de gratidão, que a Junta de Freguesia de Aldoar se orgulha de demonstrar. Aliás, a autarquia aldoarense jamais desatará os laços que a unem ao cineasta - é uma questão de honra e de justiça.
O Agrupamento de Escolas de Aldoar recebeu o nome de Manoel de Oliveira, em homenagem. Aquando do baptismo da escola, foi feita uma exposição na Junta de Freguesia, com várias estatuetas que o representavam.
Manoel de Oliveira e a esposa honraram a freguesia e o Agrupamento de Escolas com as suas presenças na efeméride. Enternecida, Aldoar guarda o realizador no coração, sentimento que merece a reciprocidade do mais importante nome do cinema português.
