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Uma ponte entre Portugal e Turquia

A Junta de Freguesia de Aldoar tem feito um grande esforço na aproximação e no diálogo com a Associação de Amizade Luso-Turca, entidade que representa a união entre dois povos histórica e geograficamente distantes, mas, afinal, com tantos traços em comum. Ali Akça, director desta instituição, reconhece e retribui esse empenho. Fala dos projectos de apoio, da implementação institucional e da amizade que encontrou neste país - sentimento que dá nome à associação que lidera.

Visitámos as instalações da Associação de Amizade Luso-Turca. O director desta instituição com sede em Aldoar foi um anfitrião perfeito: recebeu-nos de braços abertos, tão acolhedores como aqueles que o acolheram em Portugal. Bebemos chá turco e conhecemos os costumes de um país de tradições fortes… Ali Akça destaca a hospitalidade dos portugueses, faz um apelo ao coração para falar das maravilhas da sua pátria, numa altura em que a Turquia tenta abrir as portas da União Europeia e mostra ao mundo que pretende semear a paz, mediando um conflito entre Síria e Israel.

Começamos por si. Como nasceu a sua ligação a Portugal?

Depois de trabalhar em Ankara e na Bélgica, onde completei o mestrado, fui para a Argentina, onde conheci a minha esposa. Regressámos à Bélgica, onde há muitos turcos que trabalham na área do comércio. Aí, surgiu a possibilidade de passar a lua-de-mel em Portugal, país que eu não conhecia. Sabia apenas que se situava perto de Espanha. Fiz uma pesquisa na Internet e descobri as praias, o mar, a história…Quando estávamos em Portugal e nos preparávamos para regressar, recebi um convite de um amigo, que precisava de pessoas que falassem turco, português, espanhol e francês, para um projecto neste país.

O projecto da Associação de Amizade Luso-Turca?

Exactamente. Esta associação era necessária porque há muitos turcos que desenvolvem actividades comerciais, em áreas distintas como tapeçaria, restauração, entre outras. Eram precisas pessoas para desenvolver uma associação de apoio aos turcos e aos emigrantes portugueses na Turquia, para divulgar actividades e fazer um intercâmbio.

O que encontrou em Portugal?

Encontrei amizade. Encontrei um povo muito parecido com o turco. Os portugueses são hospitaleiros, ajudam muito. Noutros países não recebem os estrangeiros com os braços tão abertos. Um estrangeiro que procure ajuda neste país – eu apenas conheço o Porto, mas presumo que esta característica seja dos lusitanos – consegue resolver os seus problemas.

E esta associação é um pólo de integração dos estrangeiros.

O objectivo é prestar apoio aos turcos e também aos portugueses, estabelecer uma ponte entre os povos, que não têm, historicamente, uma ligação estreita. Os portugueses não conhecem a Turquia e os turcos não conhecem Portugal. É preciso que nós, através de programas, iniciativas de diversos tipos, acções culturais, facilitemos o contacto entre os países.

Estão contentes com o resultado do vosso trabalho?
Tudo corre muito bem. Por exemplo, acabámos de prestar apoio a um turco que estava a trabalhar na tapeçaria e vendeu o seu negócio e vai dedicar-se à comercialização de cogumelos. Vão comprar em Portugal e vender a outros países… Eis um exemplo que representa o nosso desempenho. Na sexta edição das ‘Olimpíadas Internacionais de Língua Turca (Ancara-Istambul, Maio de 2008)’ a associação representou a Portugal pela primeira vez, com um grupo de jovens portugueses, e trouxe três medalhas de bronze e duas menções especiais.

Que apoio presta a associação para que esses negócios se desenvolvam?
Toda a ajuda que nos solicitam. E também nos preocupamos com a comunidade lusa que reside na Turquia, que não é muito grande, mas não deixa de merecer a nossa atenção. Temos portugueses com negócios em Esmirna, Ancara e Istambul… Conhecemos muitos jovens que, através do programa Erasmus, visitaram a Turquia, casaram e por lá ficaram…

Quantos turcos residem em Portugal?

São cerca de 250, espalhados por todo o país. Não sabemos quantos portugueses há na Turquia, mas o número deve rondar os 200.

Há um turco que desenvolveu um projecto informático, no Algarve, o que significa que o comércio das tapeçarias não é a única especialidade dos seus compatriotas…

É verdade. Isto transmite uma ideia do emigrante turco. Esse projecto informático caracteriza o que é o desempenho dos turcos em Portugal. É gente que quer investigar e chegar mais longe. Ao nível das artes, por exemplo, destaca-se, entre outras acções, o maior festival do mundo de construções de areia, feito por um turco. Também foi um turco quem ganhou o segundo prémio na ‘X edição Porto Cartoon’. Os emigrantes turcos, que partem para outros países, destacam-se também porque criam emprego. Ao contrário dos emigrantes comuns, que saem do seu país à procura de trabalho, o turco gera emprego, com a criação de negócios.

Esta associação trabalha com a embaixada Turca?
As actividades que desenvolvemos são comunicadas e existe uma estreita ligação. Há programas internacionais na Turquia e o Governo local divulga-os através da Embaixada. Depois, nós tomamos conhecimento dessas actividades e damos o nosso contributo. Estamos sempre em contacto com a embaixada.

E porque escolheram o Porto e Aldoar como localização para a vossa sede?
Adoramos esta cidade e esta freguesia. Pensou-se que o Porto e as proximidades com a Boavista seriam uma localização excelente, por razões comerciais.

Esta associação consegue divulgar as suas actividades?
Estamos bem implementados e somos conhecidos e reconhecidos. Temos bons contactos institucionais. Somos uma associação luso-turca, o melhor modo de exprimir a nossa actividade e função. Somos reconhecidos pela Câmara do Porto como a única associação representativa da comunidade turca e, por isso, formamos parte do Conselho das Comunidades do Porto.

Como acompanha à distância a realidade do seu país?
Com muita atenção, claro. Esta é uma fase importantíssima para a Turquia.

Acredita que a Turquia poderá integrar a União Europeia já a partir deste semestre de liderança francesa?
É curioso que essa é a minha tese de doutoramento na área de Relações Internacionais… De uma forma simples, posso dizer que, se a Turquia integrar a União Europeia, óptimo. Será bom para o país. Mas, se não entrar, não é o fim do mundo, porque a Turquia está a desenvolver-se, em termos económicos.

Para a União Europeia, seria importante ter no seu seio um país que fizesse uma ligação com o mundo muçulmano.
Concordo… Somos um país multicultural… Portugal tem um vizinho. A Turquia tem oito. Há muito trânsito aéreo, sobre a Turquia. Se a União Europeia aceitasse este país no seu seio, seria bom para nós, em termos económicos, mas também para a Europa. A Turquia faria uma ponte entre Oriente e Ocidente.

Como analisa esta mediação turca no conflito entre Síria e Israel?
É a prova de que a Turquia quer promover a paz. O actual Governo está empenhado em fazê-lo e fico feliz por perceber esse esforço, que tem dado frutos.

Governo esse que tem resistido a golpes de Estado…
É verdade… Mas o país quer a paz e defende a Democracia. Temos um bom primeiro-ministro, que está a trilhar o caminho correcto.

O que destaca do seu país?
A modernidade aliada à sua História. Temos um grande respeito pela História, sentimento bem patente nas mesquitas do século XII. Preservamos a nossa cultura e orgulhamo-nos dela.